A Moda e Sísifo

Briguei sério com a minha mãe quando fui explorar a caixa de roupas antigas que ela guarda lá no fundo do armário e descobri que ela tinha se desfeito de todos os croppeds que usava na adolescência. Aconteceu o mesmo quando veio a moda da calça flare, da saia cintura alta, das roupas metalizadas e, mais recentemente, confesso que foi frustrante descobrir que ela tinha se desfeito de todos os seus antigos mules, da bota branca e das calças pantalonas curtas.

A minha avó, por outro lado, nunca me decepcionou. É só pedir para ela uma minissaia, uma calça boca de sino, uma peça pop-art ou hot pants dos anos 60; bolsas de crochê, calças militares ou boca-de-sino, bijoux de miçanga ou peças metalizadas típicas dos anos 70; calças cintura alta, colete, blusas com manga de morcego ou bufantes e até polainas de cores cítricas anos 80; e, finalmente, jaquetas de couro, calças baggy, moccasins ou saias xadrez, estilo anos 90, que ela te entregará uma peça vintage, conservada, linda e pronta para ser usada.

Ora, a moda é como o mito de Sísifo. No mito o personagem é condenado a rolar um rochedo incessantemente até o topo de uma montanha, no entanto, toda vez que ele quase chega ao topo, perde a força e a pedra rola morro abaixo. O esforço se repete infinitamente; o homem sobe rolando a pedra e, quase chegando ao topo, ela rola de volta para o início da montanha. A filosofia tem diversas interpretações para esse mito.

Transpondo para moda, a conclusão que eu chego é, a moda é cíclica, ela vai e volta. Tendências são feitas, refeitas, desfeitas e assim por diante. É para ser assim, coisas estáticas são chatas.

O meu subconsciente não se surpreendeu com a mamãe. No fundo, sei que das duas uma: ou ela não conhece o mito de Sísifo ou, se o conhece, não está nem ai para ele, é desapegada e ponto.

Agora, quanto à minha avó fiquei curiosa e fui perguntar por qual razão ela guardava peças tão antigas. A resposta foi simples e inesperada: “ora, porque eu as uso! Adoro essas peças e não estou nem ai para a moda”.

No fundo ambas são desapegadas, a minha mãe do objeto da moda e a minha avó do que a moda espera dela. Quando descobri que moda é desapego, perdoei minha mãe. A minha avó nunca precisei perdoar, ela é desapegada desde que nasceu.

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