Black Friday e consumismo em tempos de mudanças climáticas

Consumir já parece uma prática inerente a nossa humanidade. Desde a revolução industrial, onde o ofício manual foi substituído por maquinários e surgiram novos métodos de divisão do trabalho, a produção mundial de produtos aumentou – sejam eles eletrônicos, roupas, alimentos, etc. 

Hoje, produzimos de uma forma linear: extraímos matéria-prima, fazemos um produto, investimos em campanhas publicitárias, vendemos e depois jogamos “fora”. Porém, nosso planeta não é infinito para comportar essa lógica. O resultado é a degradação ambiental e humana em larga escala. Junto com essa alta produtividade, o consumo também aumentou, se transformando em consumismo: adquirimos bens materiais ou imateriais, em uma velocidade frenética, e descartamos na mesma proporção. 

Um dos mecanismos deste sistema é a obsolescência programada e a obsolescência percebida, que são uma maneira de criar um produto que já tenha prazo de validade e não seja durável, propositalmente, forçando a compra recente de novos produtos. Na indústria da moda, a segunda é aliada nas campanhas de publicidade, desfiles, modelos de negócios como o fast-fashion e mercado de luxo. Isso faz com que a produção média de roupas seja de 80 bilhões de peças anualmente, onde só no Brasil foram produzidas 8,9 bilhões em 2018.

Black Friday, filas imensas e preços irreais

Já falamos sobre os impactos da indústria da moda, onde apontamos como essa sociedade de consumo e grande volume de produção geram exploração humana e destruição do meio ambiente. Uma manifestação empírica deste comportamento consumista pode ser o Black Friday. 

O termo corresponde a ações no mês de novembro, concentradas na última sexta-feira do mês, que oferecem descontos altíssimos e produtos a preços muito baixos. Surgiu nos Estados Unidos no início do século passado, mas ganhou grandes proporções apenas na década de 90. Anos depois, em 2019, pesquisas indicam um crescimento de 19% das vendas no período, onde os eletrônicos lideram os pedidos, seguidos de itens de vestuário e eletrodomésticos. 

A Black Friday se tornou um ponto complexo da nossa cadeia de hiperprodução e hiperconsumo; mais do que um reflexo das engrenagens do sistema, ela alimenta o imaginário irreal de que só somos seres humanos se temos bens materiais. Preços tão baixos sempre vão custar caro para alguém, seja pessoa ou planeta. Vivemos uma crise climática que não permite mais essa linearidade. 

Como integrar movimentos mais consciêntes? 

O consumo não deixará de existir, mas precisa ser ressignificado e alinhado com a sustentabilidade, o que exige mudar não apenas os produtos da prateleira, mas também toda nossa mentalidade para compreendermos que comprar algo novo não é a única forma de ter acesso a um item material. Nessa contramão, o White Monday é um movimento que acontece na segunda-feira da semana do Black Friday, onde o incentivo é aderir a circularidade invés da compra, por meio conserto, troca, aluguel e preferência por itens de segunda mão. 

Ainda, existem iniciativas que buscam conscientizar a população sobre os perigos de comprar demasiadamente e os impactos que isso causa na Terra. Um exemplo é o movimento Roupa Livre, que funciona como um estúdio criativo para pensar em soluções num mundo que já tem roupas demais. As ações realizadas variam entre online e offline, com encontros de trocas e até um aplicativo para trocas de roupas usadas.

No Desapegue, nós incentivamos a colaboração, o compartilhamento e os brechós. A Desateca é nosso novo empreendimento onde provamos que para usar uma roupa nova você não precisa comprar: oferecemos um guarda-roupa compartilhado, em formato de aluguel mensal. 

Em nossas ações para o Black Friday 2019, fomentamos os brechós que são uma maneira de colocar as roupas para circular – afinal, foi assim que começamos. Oferecemos 15% de desconto por semana em uma categoria diferente de produtos, e nesta semana a oferta se estende para todas as peças do brechó. 

Diante disso, pensar individualmente em como reduzir nosso consumo e escolher produtos com uma produção justa e responsável são passos importantes; precisamos também de ações coletivas, que mobilizem sociedade, poder público e iniciativa privada na empreitada de produzir menos. Assim, nossa preocupação não será com a próxima promoção, mas com o planeta e as pessoas. 

// Desapegue + UN Moda Sustentável : esse texto faz parte de uma série de matérias sobre moda e sustentabilidade, produzidos em parceria pela agência UN Moda Sustentável para a Desapegue. Acompanhe!  //

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Duvidas? Estamos Online!